A janela
Minha janela, sem luzes, torna-se lúcida o bastante para me questionar. Debocha constantemente das minhas fraquezas, duvida das minhas forças e alimenta a chacota de um mundo invisível.
Não adianta bater palmas, gritar a esmo ou girar a chave.
Minha janela, mesmo com luzes, mantém a loucura de tudo a par. Pigarreia constantemente sobre meus planos, amassa os panos de fundo do dia seguinte e amarra com força meu desejo de lutar.
Não adianta esbravejar, socar o ar ou sugar a raiva.
Minha janela, mesmo sem mim, sabe bem por onde eu ando. E dá sempre um jeito de me achar.
Para enfiar garganta abaixo o desprezo da plateia morta que contempla o caos.
Escrito em 27 de abril de 2020.