Carta do exílio
De: ninguém
Para: quem quiser ler
Ridículo. É como eu me sinto quando te vejo. Diminuído a restos de uma barata morta. É como eu me sinto quando vejo a luz do mundo e a voz de todos os olhos. Humilhado e condenado. É como eu me sinto quando fico em pé em frente ao balcão do bar. Em meio à multidão. Em meio ao salão de festas escuro de uma conquista qualquer.
Esfolado e ignorado. É como eu me sinto quando dou uma chance a qualquer outra cor que não exale a minha dor. E a minha aura. E o poço fundo que reside em meu peito.
Entrego-me ao exílio do meu quarto escuro. Ouço pelas paredes despudoradas que não presto para mais nada. E que não valorizo mais ninguém. E que o buraco que cavei é o meu único mérito. E que as pragas que vêm são o pagamento pela minha audácia que ousou erguer demais o queixo.
Mal sabem vocês o quão baixa marcha a minha cabeça por dentro. Mal sabem vocês que há sangue por baixo do preto que eu visto. Manchas também. Nojo também. Desprezo também.
Ah, mal sabem vocês...
Entrego-me ao exílio do meu quarto escuro. Não se trata de uma opção. Tenho noção do quanto custa a salvação. Sei bem que não tenho moedas o bastante para comprar sequer um pão.
Entrego-me ao exílio do meu quarto escuro. Encho meus ouvidos com algodão. Sinto mais o pulsar da minha mão. Deito quieto na esperança de receber o devido perdão. E a compreensão de todos aqueles que eu jamais desejei ferir.
Por acidente.
Escrito em janeiro de 2020.