# Fragmentos

Cascas

Como as cascas duras de uma árvore velha, arranco as minhas sem pensar. Deixo marcas profundas na superfície rasa de uma pele pálida e manchada que nunca me fez feliz.

Não me agrado com a cicatriz recente de mais uma ferida e abro outro buraco no lugar. Busco, pois, pela marca perfeita, pelo sinal bem feito de uma vida atribulada.

Enquanto não vêm o machado e o serrote, continuo curvado por aqui. Aguento a brisa da transição, o sol forte do verão e o vento norte de qualquer outra estação. Perco mais e mais folhas e sei que logo restarão apenas os galhos secos de um esqueleto esquecido.

Enquanto não vem o soldado para transformar-me em barrote, continuo preso por aqui. Aguento a frustração e a rejeição e aceito a escassez das chances que nunca existiram. Perco mais e mais folhas e sei que logo meus destroços cairão em meio ao asfalto ressequido.

Como as cascas duras de uma árvore velha, arranco as minhas sem pensar. Deixo a distração da dor me dominar. Deixo o prazer da ilusão me arrebatar.

Escrito em setembro de 2019.