Derradeiro sem cerimônias
Parecia bem. Não radiante, mas bem. Andou pela casa como de costume, com um semblante neutro e um olhar reto. Tomou o café, limpou a sujeira, fez dois ou três comentários sobre o noticiário e fechou a porta do quarto sem dar boa noite. Tudo como de costume. Parecia bem. Não radiante, mas bem.
Foi estranho não ouvir o barulho que ele fazia com a garganta por volta das 5h da manhã.
A mensagem subliminar estava na última linha do primeiro comentário. Era algo sobre o crescente número de óbitos, não lembro bem.
Sequer posso chamá-lo para repetir a pergunta. Sequer posso ouvi-lo resmungando sobre a minha qualidade auditiva.
O dia hoje parece bem também. Não radiante, mas bem.
Por onde eu vou andar?
(Não me atrevo a pôr a tampa. Ainda posso ouvir o seu sarcasmo.)
Escrito em 26 de maio de 2020.