Estéril
Vejo prédios no plástico, gente no vidro, vitrines vazias nos teus olhos.
Vejo bagunça na comida, carteiras famintas, farelos nos teus sonhos.
Vejo amores em canoas, proas despedaçadas, calçadas de sangue e suor.
Sinto coisas pelas coisas que não mais sinto pelas pessoas.
Findo a razão de cada dia numa pilha de desejos.
Reciclo o meu ego descartável para manter-me na fôrma.
E vejo mais prédios no plástico, vidro nos teus olhos, gente nas vitrines.
E apaixono-me pelo manequim, abraço a placa de preço, beijo um rosto que não passa do pescoço.
E vejo ainda mais plásticos ternos, infernos de cetim, controles de uma vida morta.
E vejo a cegueira me acompanhar enquanto encaminho minha esterilidade numa xícara de café.
Escrito em outubro de 2019.