# Fragmentos

Francamente?

Meu eu e suas ambições estão gastos, esgotados, secos, vazios. Não há uma gota de água sequer na vasilha da cozinha. Parece até uma estiagem cruel da mente e da alma (como se fossem coisas separadas). Há o anseio por renovação, por reconstrução, por ressurreição. Falta-me um dom divino, porém, uma atribuição maior capaz de mover sozinha a pedra da tumba onde repouso na mortalha.

Atendo a estas caixas de texto cético, ríspido, amargo e solitário. Sóbrio também, muito bem sóbrio. Sei que não acredito no que digo mais do que naquilo em que penso. Sei que as vozes caladas dos meus olhos são soberanas e se esquivam muito bem dos linchamentos esgueirados.

Tamanha soberba não basta, admito. Lamento pelo lamento errante enquanto o velho anseio me consome numa relação nada simbiótica. O mesmo anseio que bebe a água do último oásis sem medo do deserto.

Bom, meu eu e suas ambições seguem gastos e sem qualquer perspectiva de chuva. Assim sendo, resta-me preencher as jarras daqui mesmo com letras confusas enquanto não vem o abraço duro da sede e da inanição.

Escrito em 15 de agosto de 2020.