# Fragmentos

Gilson

Gilson estava virando o corpo para trás quando o trem passou. Foi o que disse a polícia.

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Gilson alcançou o sucesso cedo. Antes dos 30 já estava com um mestrado no bolso e um emprego estável numa grande empresa. Os vizinhos davam aquele bom dia típico da aprovação alheia. O porta-retratos da estante da sala exibia um sorriso entusiasmado e invejável. Eram os padrões postos sendo obedecidos à risca, ora.

Naquela noite de agosto de 1990, porém, algo saiu dos trilhos. Gilson foi instruído a pegar a estrada com o carro dos pais. Assim o fez, ainda que sua justificativa tenha sido um tanto controversa pela falta de nexo. Dirigiu por cinco horas até parar num trecho deserto da rodovia estadual. Sabia bem que a velha ferrovia (ainda utilizada para transporte de grãos) corria em paralelo ao asfalto.

Gilson virou a frente do carro para o mato e manteve os faróis altos ligados. Sentou por 10 ou 15 minutos no capô e iniciou um debate acalorado sobre os propósitos daquela missão. Gritou, chorou, mas não convenceu. Rapidamente, num reflexo inusitado, tomou as chaves para si e correu para o banco do motorista. Sequer conseguiu fechar a porta: três agentes da polícia federal que estavam à espreita puxaram-no à força.

Gilson entendeu que não tinha escolha: correu para o mato seguindo a luz alta do carro que ficou para trás. Estava claro para ele que algo havia saído dos trilhos. Sabia que havia falhado na sua missão divina de espalhar a palavra da purificação. Sabia também que os trilhos estavam à frente, a menos de 100 metros, meio enferrujados, mas ainda visíveis.

Só havia uma maneira de consertar o caos da desobediência: correndo. E Gilson correu. Não muito, constataram os agentes. Os estaduais, da polícia civil, não os federais. Menos de um minuto depois do ímpeto da fuga, a luz do carro foi atravessada por outra perpendicular.

Gilson tropeçou num dormente e tentou espichar o pescoço na direção contrária antes de cair. Não deu tempo de ver, mas deu tempo de pensar: a vida havia voltado ao normal.

E os federais, o que fizeram os federais?

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Escrito em 15 de agosto de 2020. Inspirado em uma história real.