# Fragmentos

Mofo de dentro

Sentado na pontinha da cama, eu encarava o mofo no fundo da gaveta da minha mesa. Não fazia uma semana que eu o havia arrancado de lá à força. Suspirei numa mistura de preguiça e decepção. Olhei ao redor, na mesa mesmo, para ver se havia algum sinal de proliferação. Nada, ufa! Por segurança, vasculhei outros lugares fechados: o roupeiro, as caixas de plástico que guardam tranqueiras mundanas e, claro, mais gavetas. Havia um ensaio aqui e ali de mais parentes do mofo da gaveta da mesa. Busquei um pano, um tubo de álcool etílico e um lustra móveis. Sentei novamente na pontinha da cama determinado e pensativo. Semana que vem, talvez. Semana que vem haveria tudo de voltar. Bastariam mais dois ou três dias úmidos seguidos. Tudo bem, seriam poucos dias. E o que eu faria com os meses de chuva e frio a fio dentro de mim? Para isso eu já tinha a resposta. Levei de volta à cozinha o lustra móveis e o pano e voltei de lá com uma caixa de fósforos. O álcool eu deixei. Seria útil.