Moldado ao desejo de outrem
Fizeram-me acreditar na aberração que nunca fui. Impuseram fronteiras aos meus sonhos. Cortaram meus braços a golpes de navalha. Foi o bastante para dar corpo à besta do imaginário. Ao inventário cruel dos vendedores da salvação. Daqueles que creem em assombração. Dos poucos que têm a benção de um divino qualquer.
Fizeram-me acreditar na aberração que nunca fui. Criaram um filhote da amargura. Fizeram fartura ante à minha miséria. E agora eu sou a personificação de tudo aquilo que jamais foi feito para existir. Foi, sim, o bastante para dar cabo do mal que nasceu para ser puro. Do pobre infeliz que à luz foi negado. Do receio daqueles que temiam um legado maculado.
Fizeram-me acreditar em tudo o que sou agora. Jogaram fora a chave e o antídoto. Condenaram-me sem julgamento por um crime não cometido.
E agora?
Escrito em 5 de fevereiro de 2020.