O desespero que sustenta
Teu desespero me sustenta. Não é por mal, embora eu não pense muito nisso. Faz parte do ciclo "natural". Faz parte do que contenta o mundo e seu modesto pedestal.
Teu desespero me sustenta. Poderia ser mais piedoso, quiçá caridoso, mas faz parte do ciclo "natural". Preciso do papel valioso para comer e acordar no limbo de mais um dia chuvoso.
Teu desespero me sustenta. Sei que não é por mal. Faz parte do ritual. Faz parte do ciclo "natural". Preciso do teu suor apavorado para ter outra alegria embalada em jornal.
Teu desespero me sustenta. Se eu não penso, não é por mal. Faz parte do ciclo natural. Tão consensual que até agora grifo de mentira se fez opcional. E invisível. E omisso. Igual a mim quando deixo de pensar no mal que faço por me alimentar da tua morte sem nenhum assumido compromisso.
Escrito em setembro de 2019.