# Fragmentos

Parou de funcionar: um texto feio

As coisas não estão mais funcionando. O mundo não está mais funcionando. Os dias não estão mais funcionando. Eu não estou mais funcionando.

Não sei o que há. Desconheço a origem da força obscura e gigantesca que me agarra pelos pés enquanto amarra as minhas mãos. Que tenta me estripar e mandar minhas tripas ao fogão. Que me mantém colado e selado ao mesmo solo pobre e infértil da mesquinharia.

É, as coisas não estão mais funcionando. Meu mundo não está mais funcionando. Meus dias não estão mais funcionando. Eu não estou mais funcionando. Nem no mundo, nem nos dias, nem nas coisas. Assemelho-me muito às folhas secas da casa abandonada. Assemelho-me muito aos bancos bambos da varanda envelhecida. Sem perspectivas. Sem saídas a não ser o buraco da fechadura das portas do inferno.

Sigo sem saber o que há. Desconheço a origem da força obscura e gigantesca que aniquila qualquer mensagem positiva. Que exaure a disposição dos poucos leais ao que fui um dia. Que ejeta para a imensidão inerte do espaço qualquer chance de crescer e de sorrir.

O que fazer, então, com o que não funciona mais mesmo após inúmeras tentativas de conserto?

Meu pai diria para deixar ao tempo à espera de qualquer catador de sucatas.

Meu pai diria para comprar outro novo e melhor.

Exatamente como ocorreu com o ventilador que estragou no verão passado. Exatamente como ocorreu com o copo de lata amassado.

E assassinado sem piedade pelo meu ímpeto febril.

Escrito em 21 de janeiro de 2020.