Sem cicatriz
Havia a ferida interna, sempre eterna e ardente.
Havia a gaveta escondida, sempre vazia e trancada.
Havia a vasilha vazada, sempre cheia e trincada.
Até que ontem tornou-se aparente a sangria. Tudo ruiu. Uma enxurrada vermelha rompeu as barreiras e desceu a ladeira varrendo os pobres coitados.
Tudo foi vasculhado e arrasado. Nada mais havia, enfim. Os arquivos voaram para longe e...
E a ferida ardente seguiu molhada e resistente aos pontos.
Milhares deles, um para cada dia de choro engolido.
Sem nenhuma cicatriz.
Escrito em 4 de junho de 2020.