Sem sobremesa
Abro as portas do roupeiro e deparo-me com a imensidão escura pendurada nos cabides. Estendo os braços e recebo o abraço das sombras. Fecho a camisa até o último botão e viro as costas para o purgatório. Encaro o espelho uma última vez e profiro palavras macabras em silêncio. Tranco a porta da frente por dentro, sento no sofá e aguardo a luz das 7h queimar os restos da minha alma.
Aos demônios do roupeiro: restaram os pedaços secos de um desgosto cessado.
Sem sobremesa.
Escrito em 26 de janeiro de 2020.