# Fragmentos

Sexta de inverno

– Vem viver – disse ele.

Ah... Olhei atravessado.

– Posso ir morto?

Ele sentiu meu sarcasmo. Saí da sombra da cozinha assim mesmo, contrariado, com remelas secas ainda segurando os meus cílios. O sol sobre o gramado do pátio estava bom para um dia frio.

Sentei na base da escada e fitei o céu.

– Já fui mais feliz nesse cenário – murmurei, mas ele não ouviu.

Baixei a cabeça e juntei um galho seco para dobrar e quebrar.

Não demorou muito para ele se aproximar com cara de deboche e devolver:

– Doeu?

Mortos não sentem dor, meu caro.

Dei um sorriso de canto, bem discreto, e voltei para a sombra fazendo alguma piada infame e juvenil. Nunca gostei do sol, nem mesmo quando estava vivo. Minha quota de exposição já estava cumprida, afinal.

Antes da reclusão, porém, uma última tarefa: checar a caixa dos correios e recolher o jornal.

Serviço para um, para quem vive na companhia da sombra daquilo que foi um dia.

Escrito em 15 de maio de 2020.