Silêncio
O silêncio me encontrou. Permanecer acordado madrugada adentro sempre foi um perigo, eu sei. Facilitei, baixei a guarda, fraquejei.
O silêncio me agarrou pelo pescoço. Fui arremessado com violência contra a parede de madeira cheia de rebarbas. O recinto tremeu com o estrondo escandaloso enquanto eu examinava a extensão das novas feridas.
O silêncio me poupou. O breu do meu quarto nunca foi o meu real abrigo, eu sei. Não chorei, não lamentei, não hesitei. Revidei o golpe com toda a força do meu pavor. E do meu rancor. E do calor que tomou conta de mim.
Foi um ato covarde, eu sei. Permanecer acordado madrugada adentro sempre foi uma afronta. O silêncio, pois, carimbou a conta.
Foi um ato febril, eu sei.
Caí de bruços no assoalho malfeito e ouvi os latidos dos cachorros em outra frequência. Era o som da minha delinquência. Era a consequência e o meu fim.
Até o dia seguinte.
Escrito em setembro de 2019.