# Fragmentos

Típica manhã de outono

Era uma manhã típica de outono: fria demais para usar calção, quente demais para usar calças. Seria assim até berrar o sol torto* do meio-dia. Não havia sono por aqui. O saldo na balança do descanso pendia mais para um infarto fulminante do que para dois anos de expectativa de vida extras. A cozinha era grande, desproporcionalmente grande, e uma das lâmpadas acesas servia de mera redundância.

Andava eu em torno da mesa ouvindo música. Andava eu absorto. De repente dancei, olhei para a gata esguia que me espiava com curiosidade e fui tomado por algum sentimento genérico de culpa, remorso e tristeza. Entendi repentinamente que meus rituais e métodos de nada serviam. Salvar-me-iam eles de uma vida mal vivida, bem restrita e deveras amarga? Ah, com certeza não.

Dancei mais (do jeito mais confuso e desengonçado que a gata esguia poderia imaginar) afirmando para mim mesmo que os nós bem apertados e os tênis limpos seriam coadjuvantes. Dancei sabendo que se tratava de um lapso de sanidade. Um súbito e volátil lapso. Dancei sabendo que a cadeira de abrir ao lado da lareira me acomodaria e jogaria minhas estatísticas de volta para o lado do infarto fulminante.

E mesmo podendo fazer tudo, nada eu podia fazer.

*Para quem mora abaixo ou acima dos trópicos.

Escrito no outono de 2021.